4.10.04

And Your Dreams Come True


Os ídolos deveriam ser as pessoas com as costas mais largas do mundo. É neles, por intermédio do conhecimento da arte a que se propõem para comover seus espectadores e ouvintes, referindo-me somente àqueles que a realizam com o intuito de atingir profundamente seu público, descartando os artistas-níquel, que despejamos nossas aspirações, sonhos, frustrações. Parecem ser desprovidos de imperfeições e, quando as percebemos, tornam-se menores ou passam desapercebidas. Eles "têm controle dos nossos sorrisos e lágrimas", já dizia George Harrison.

Paul McCartney, Michael Nesmith, Pete Townshend. The Beatles, The Monkees e The Who, respectivamente na corrrelação artista-banda. A imagem platônica que carrego em meu cérebro, eles conhecem muito sobre mim, alegrias e mágoas. Afinal ídolos são imagem ao quadrado: ninguém deste mundo terreno é infalível o suficiente para receber esse título; eles são o que imaginamos e o que eles passam ser através de seus rostos belos ou disformes, suas combinações de acordes perfeitas aos nossos ouvidos. Como já ressaltado anteriormente, eles também possuem os seus defeitos que nossos olhos e corações de fãs insistem em manterem-se cegos.

Mas não é desses três que dissertarei sobre.

Há menos de três meses tomei o gosto por conhecer mais a fundo uma banda que já conheço há anos - Beach Boys. O mesmo fato aconteceu com o The Who. Ambas as bandas já haviam passado por meus ouvidos na infância, fizeram parte importante na minha não tão passada adolescência a ponto de surgir uma fagulha de adoração, porém só recentemente elas me conquistaram de vez. Graças a internet pude ter o devido contato com elas; essa é a parte ótima do mundo virtual, o contato com a cultura sem ter que, infelizmente, pagar por ela. Sim, é triste não ter condições para pagar todo o trabalho que o artista teve para concluir uma música que me comove.

A sorte existe. Precisamente quando virei fã dos trabalhos dos Beach Boys a vinda de Brian Wilson para realizar um único show no Brasil é anunciada. O enfoque da apresentação será o tão aclamado melhor album perdido da história do rock - SMiLE - que após mais de 30 anos do começo de suas gravações foi "terminado" por Brian (na verdade ele foi totalmente regravado, sem participação das gravações realizadas na época original do album, nem inclusão dos remanescentes Beach Boys) e tocado ao vivo. Show importantíssimo para o mundo musical, o qual terei todas as condições favoráveis para que eu vá - local, condições financeiras e principalmente disposição em me deixarem ir.

Encontro-me na contagem regressiva da compra do ingresso e emocionada de antemão. Será a primeira vez que verei um show ao vivo. Ter a possibilidade de na primeira vez ver um artista tão consagrado quanto Brian, meu segundo maior ídolo atual, num espetáculo da importância declarada acima me faz ter uma sensação única de felicidade e gratificação. Tantos anos na espera de tal acontecimento - ver um dos mues ídolos do rock clássico - e agora estou próxima da realização de mais um sonho. Não dá para pensar antecipadamente na real relevância das aproximadas duas horas e meia que passarei na presença do Brian. O coração acelera e a mente viaja; o cara da foto acima não residirá mais somente no meu imaginário. Se tornará de carne e osso bem na frente dos meus olhos.

Brian já não tem mais a mesma aparência de antes. Não canta como fazia junto aos Beach Boys. Teve problemas na vida pessoal que o levaram para uma poço existencialista. Está voltando a vencer saindo em turnês, ao ter seu ultimo album Gettin' In Over My Head bem recebido pelos fãs e crítica. O SMiLE dispensa palavras; uma vitória de Brian, que ao rever o material deve ter topado com todas as memórias que o levaram ao abandono do projeto, mas não desistiu e trouxe o album à luz. Se já era à frente de seu tempo em 1967, hoje em dia continua com o mesmo caráter experimental colocando todas as bandas comerciais no chinelo. É arte. Os chatos de plantão diriam: "vais gastar dinheiro para ver um velho?" Minha resposta é SIM, com muito prazer. Nada importa frente aos bons sentimentos que Brian me propõe a cada vez que ouço suas canções e esta é uma forma de agradecê-lo por existir e por promover Sorrisos com seu dom da música.

1 Comments:

Anonymous Anônimo said...

"Vai gastar dinheiro pra ver um velho?"... realmente é automático prevermos que alguém possa fazer tal pergunta. E eu também tenho enorme prazer em dizer que sim, irei ver o show do VÉIO DE 62 ANOS Brian Wilson, que fez parte dos Beach Boys, aquela banda do tempo em que as peles da bateria eram na verdade feitas com couro de dinossauro (como diria o Kiko).
E sinceramente não me importo com que idade ele esteja, afinal é a mesma peçoua, a mesma alma. Ele poderia ter 100 anos e eu iria vê-lo.
Adorei o texto!
Anahi

7:36 PM  

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